Há dias em que acordamos com a sensação de que tudo está no lugar. O céu parece mais azul, o coração está tranquilo, os pensamentos caminham em harmonia e temos a impressão de que a vida, finalmente, resolveu colaborar conosco. Em outros dias, acontece justamente o contrário.
Uma notícia inesperada, uma dificuldade, uma decepção ou simplesmente algo que não saiu como planejávamos é suficiente para modificar o nosso estado de espírito.
E então descobrimos, mais uma vez, que viver é caminhar entre possibilidades.
A vida não nos entrega um roteiro pronto.
Ela nos oferece o palco, coloca diante de nós algumas circunstâncias e nos permite escolher como iremos representar o nosso papel.
É verdade que existem acontecimentos que não escolhemos.
Mas quase sempre podemos escolher a maneira como iremos enfrentá-los.
Talvez esteja aí uma das grandes diferenças entre simplesmente viver e aprender a viver.
Quem apenas vive espera que os acontecimentos correspondam às suas expectativas.
Quem aprende a viver compreende que as expectativas são apenas possibilidades — e que a realidade pode escrever uma história diferente daquela que imaginamos.
Por isso, não devemos medir a nossa vida apenas pelos resultados.
Há conquistas que chegam depois de muito esforço.
Há sonhos que se realizam.
Há portas que se abrem.
Mas também existem portas que permanecem fechadas, caminhos que não dão certo e projetos que precisam ser abandonados ou adiados.
E isso não significa necessariamente fracasso.
Às vezes, significa apenas que a vida está nos conduzindo por uma estrada diferente.
Quantas vezes olhamos para trás e percebemos que algo que nos causou sofrimento acabou sendo importante para a nossa transformação?
Quantas vezes desejamos intensamente alguma coisa e, depois de algum tempo, percebemos que não tê-la conseguido foi, de alguma maneira, uma oportunidade para descobrir outro caminho?
A vida tem dessas coisas.
Ela nem sempre explica imediatamente aquilo que está fazendo conosco.
Por isso, é preciso aprender a respeitar o tempo.
Nós temos pressa.
A vida, não.
Queremos respostas hoje.
Queremos resultados agora.
Queremos compreender imediatamente por que determinada situação aconteceu.
Mas algumas respostas somente aparecem depois que o tempo passa.
E talvez seja justamente o tempo que nos permite enxergar aquilo que a emoção, naquele momento, não nos deixava ver.
Quando alguma coisa não acontece como desejamos, nossa primeira reação muitas vezes é perguntar:
“Por que isso aconteceu comigo?”
Talvez uma pergunta diferente pudesse nos ajudar mais:
“O que isso pode me ensinar?”
A primeira pergunta procura um culpado.
A segunda procura um aprendizado.
E existe uma enorme diferença entre as duas.
Não podemos mudar tudo aquilo que acontece conosco.
Mas podemos mudar a maneira como reagimos ao que acontece.
Podemos transformar a dor em experiência.
A dificuldade em aprendizado.
A queda em impulso.
A decepção em maturidade.
E até mesmo uma derrota pode se transformar em uma espécie de vitória quando nos deixa mais preparados para os próximos passos.
É por isso que acredito que, ao final de cada dia, deveríamos fazer uma pequena pausa.
Antes de dormir, quando o silêncio toma conta da casa e as preocupações diminuem de intensidade, deveríamos olhar para dentro de nós mesmos e perguntar:
“O que eu aprendi hoje?”
Talvez tenhamos perdido alguma coisa.
Talvez tenhamos errado.
Talvez não tenhamos conseguido aquilo que desejávamos.
Mas, se aprendemos alguma coisa, o dia não foi perdido.
Porque existem conhecimentos que não podem ser comprados.
Eles são adquiridos através da experiência.
E experiência, muitas vezes, nasce justamente dos momentos que gostaríamos de esquecer.
Por isso, devemos comemorar as nossas conquistas sem nos tornarmos prisioneiros delas.
E devemos aceitar nossas derrotas sem permitir que elas definam quem somos.
Uma vitória não nos torna invencíveis.
Uma derrota não nos torna derrotados para sempre.
Somos seres em construção.
Todos os dias acrescentamos alguma coisa à pessoa que somos.
Um pensamento novo.
Uma experiência.
Uma descoberta.
Uma mudança de comportamento.
Uma decisão.
Um recomeço.
É assim que vamos construindo nossa história.
E talvez seja essa a verdadeira possibilidade de êxito que a vida nos oferece.
Não a garantia de que tudo dará certo.
Mas a oportunidade permanente de continuar tentando.
Porque o êxito não está somente na chegada.
Está também na caminhada.
Está na coragem de começar.
Na humildade de reconhecer um erro.
Na capacidade de pedir perdão.
Na disposição de recomeçar.
Na força para continuar quando ninguém mais acredita.
E, principalmente, na serenidade para compreender que nem sempre podemos controlar os acontecimentos, mas podemos cuidar da maneira como nos posicionamos diante deles.
A vida também nos ensina que existem coisas que estão ao nosso alcance e outras que simplesmente não estão.
Aquilo que podemos mudar, devemos procurar transformar.
Aquilo que podemos melhorar, devemos melhorar.
Aquilo que depende de nós, devemos assumir.
Mas aquilo que não podemos alterar precisa encontrar dentro de nós um lugar de aceitação.
Aceitar não significa desistir.
Aceitar significa reconhecer a realidade para, a partir dela, descobrir o próximo passo.
É diferente.
Quem aceita uma realidade não necessariamente se conforma com ela.
Às vezes, apenas deixa de gastar forças lutando contra aquilo que não pode ser modificado e começa a utilizar essa energia para construir aquilo que ainda pode ser transformado.
E assim vamos aprendendo a viver.
Entre o querer e o acontecer.
Entre o sonho e a realidade.
Entre a esperança e a espera.
Entre a queda e o recomeço.
Entre aquilo que planejamos e aquilo que a vida nos apresenta.
É nessa travessia que desenvolvemos a nossa maturidade.
E é também nessa travessia que descobrimos que os dias difíceis não precisam ser inimigos da nossa felicidade.
Eles podem ser professores.
Professores exigentes, algumas vezes dolorosos, mas capazes de nos ensinar aquilo que os dias tranquilos jamais conseguiriam ensinar.
A vida é feita de altos e baixos.
Há manhãs de sol e noites de tempestade.
Há encontros e despedidas.
Há ganhos e perdas.
Há abraços que permanecem na memória e ausências que nos ensinam a valorizar ainda mais aqueles que amamos.
Tudo isso faz parte da experiência humana.
Por isso, precisamos caminhar com os pés na realidade e o coração na esperança.
Precisamos fazer a nossa parte.
Trabalhar.
Planejar.
Lutar.
Persistir.
Mas também precisamos aprender a esperar.
Porque perseverança não é somente insistir.
É saber continuar sem perder a serenidade.
E, para aqueles que têm fé, existe ainda uma força maior sustentando a caminhada.
Deus.
A fé não nos promete uma vida sem dificuldades.
Ela nos oferece algo talvez ainda mais importante: a confiança de que não precisamos atravessar as dificuldades sem esperança.
Quando o medo aparecer, que exista fé.
Quando a dúvida chegar, que exista confiança.
Quando a queda acontecer, que exista força para levantar.
Quando o caminho parecer escuro, que exista a certeza de que ainda podemos dar o próximo passo.
Porque, no fundo, ninguém sabe exatamente quantos capítulos ainda serão escritos na própria história.
E essa é uma das maiores belezas da vida.
O amanhã ainda não foi escrito.
Por isso, não devemos permitir que um capítulo difícil determine o final da nossa história.
Ainda podemos mudar.
Ainda podemos aprender.
Ainda podemos recomeçar.
Ainda podemos amar.
Ainda podemos realizar.
Ainda podemos surpreender a nós mesmos.
A vida continua oferecendo possibilidades enquanto continuamos caminhando.
E talvez, no fim das contas, o verdadeiro êxito não seja conseguir tudo aquilo que um dia desejamos.
Talvez seja chegar ao final de cada etapa podendo olhar para trás e dizer:
“Eu fiz o que estava ao meu alcance.”
“Aprendi com aquilo que não consegui.”
“Agradeci aquilo que conquistei.”
“Não permiti que as dificuldades destruíssem minha esperança.”
“E continuei caminhando.”
Porque viver é isso.
É compreender que nem todos os dias serão de vitória, mas todos eles podem trazer algum ensinamento.
É entender que algumas portas se fecham enquanto outras se abrem.
É descobrir que determinadas perdas nos ensinam a valorizar os ganhos.
É aceitar que nem sempre teremos aquilo que queremos, mas podemos procurar fazer o melhor com aquilo que temos.
E, principalmente, é reconhecer que cada amanhecer representa uma nova oportunidade.
Uma nova página.
Um novo começo.
Uma nova possibilidade de êxito.
Por isso, quando o dia terminar, não pergunte apenas quanto você ganhou, quanto conquistou ou quantas metas conseguiu alcançar.
Pergunte também:
“Que pessoa eu me tornei depois de tudo que vivi hoje?”
Se estiver um pouco mais sábio, um pouco mais paciente, um pouco mais forte, um pouco mais consciente e um pouco mais próximo de Deus, então tenha certeza:
Você não perdeu o dia.
Você cresceu.
E quem cresce através das experiências da vida nunca caminha em vão.
Afinal, o verdadeiro êxito não é ter uma vida sem obstáculos; é ter coragem para atravessá-los sem perder a fé, a esperança e a vontade de continuar vivendo.
A vida é uma possibilidade de êxito.
E cada novo amanhecer é o convite de Deus para tentarmos novamente.
Wilson Carlos Fuáh é escritor, radialista, cronista e graduado em Ciências Econômica
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