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Chuva nas mangueiras

Chuva nas mangueiras

Antes mesmo de a água alcançar o chão, a chuva já anunciava sua chegada pelo som produzido nas copas das mangueiras. 

O menino parava tudo o que fazia para ouvir aquele concerto da natureza, enquanto o perfume da terra molhada invadia o quintal. 

Eram momentos de contemplação que ensinavam, sem palavras, o encanto das pequenas coisas e o respeito pelos ritmos da vida. 

Sempre procurei valorizar as pequenas dádivas que a natureza nos oferece. 

Aprendi cedo que respeitá-la é também reconhecer sua capacidade de nos emocionar. 

O som da chuva caindo sobre as copas das mangueiras possui uma beleza única. 

Quantos compositores encontraram inspiração nesse espetáculo! 

Basta lembrar Tito Madi, que eternizou em ‘Chove lá fora’, a melodia e a poesia das águas. 

A natureza merece nosso respeito por tudo o que realiza e compartilha conosco. 

Tudo tem seu tempo, inclusive o de aprendermos a compreendê-la. 

De dentro de casa observávamos a chuva cair no quintal, enquanto aquele som tão agradável despertava nossos sentimentos. 

Ao mesmo tempo, o perfume da terra molhada invadia o ambiente, chegando muitas vezes ao interior da casa. 

As chuvas da minha infância aproximavam-nos ainda mais da natureza. 

Era quando o menino saía para brincar nas enxurradas que corriam junto às calçadas, seguindo em direção ao córrego da Prainha. 

A água batendo nas copas das mangueiras produzia uma música diferente daquela ouvida no córrego, mas ambas eram igualmente encantadoras. 

Era ali que brincávamos de garimpar pepitas de ouro, imaginando encontrá-las nas proximidades do Palácio das Águias, perto da igreja do Rosário, onde a história conta que os bandeirantes de Sorocaba extraíram grande parte do ouro que deu origem a cidade de Cuiabá. 

Na grande cidade onde estudei, nunca mais ouvi o barulho da chuva nas mangueiras. 

Também senti falta do perfume da terra molhada, até o dia que voltei para minha querida Cuiabá dos mangueirais. 

A janela do meu dormitório ficava de frente para uma mangueira. 

Foi ali que compreendi que alguns sons não envelhecem. 

O da chuva batendo em suas folhas continua sendo, para mim, uma das mais belas lembranças da infância.

Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado

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