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Leila Francisca de Souza: eterna enamorada por Cuiabá

Leila é muito saudosa pela preservação dos quintais cuiabanos

Leila Francisca de Souza: eterna enamorada por Cuiabá

Dias atrás reencontrei a dra. Leila Francisca de Souza, por ocasião dos movimentos culturais a favor dos casarões no centro histórico de Cuiabá, no casarão da família Muller, no centro de Cuiabá. Senti muita saudade da Cuiabá que ela descreveu na ocasião do encontro e do seu testemunho para a preservação dos quintais e seus pomares.

 

Leila é muito saudosa pela preservação dos quintais cuiabanos que estão desaparecendo para dar espaços aos grandes edifícios, na capital mato-grossense. “No futuro as nossas crianças não conhecerão mais araçá, saputa, jabuticaba, coroa de frade entre outras, relembrou ela”. Neila é preciso você ajudar! Exclamou ela! Então, vamos aqui, neste espaço cedido pelo jornalista Kleber Lima, falar sobre Leila Francisca.

 

Leila Francisca de Souza é contadora, advogada. Foi a Primeira Conselheira Mulher da OAB-MT e segunda secretária na gestão da Drª. Ana Angelina Vaz Curvo - primeira mulher presidente da CAA-MT. – Caixa de Assistência dos Advogados de Mato Grosso, no período de 21.05.2022 a 26.08.1983. Chefiou gabinetes de diversos governadores do estado de Mato Grosso.

 

Leila Francisca de Souza nasceu 09 de março de 1939, uma cuiabana de tchapa e Cruz, filha de Benedicto Rodrigues de Souza, conhecido como célebre Totozinho, ex-atleta e árbitro de futebol de Cuiabá, e de D. Maria Domingas de Souza e seus irmãos, Maria Leide e Leovaldo.

Devota do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, dedicou boa parte da sua vida ao escotismo, onde se tornou chefe do grupo denominado Lobinhos. Solteira, preferiu casar-se com a vocação de servir as pessoas, principalmente, crianças, velhos e a cultura de Cuiabá e as suas raízes.

 

Sobre seu pai, Leila Francisca ressaltou que “ ele se notabilizou primeiro como atleta do Paulistano e, depois, como árbitro do quadro oficial da Federação Mato-grossense de Desportos. Foi um apaixonado pelo futebol e sempre nos contava histórias fascinantes de suas atuações com a bola e com o apito.

 

Em 1928 o papai foi convidado para jogar em São Paulo em virtude do seu bom desempenho como atleta”, além de ter sido secretário de segurança pública de Mato Grosso.

 

Para o escritor Evaldo de Barros, em coluna especial do jornal Diário de Cuiabá, Leila Francisca deixa boa parte da sua memória registrada, quando diz: “ Minha primeira professora foi Petita, na Escola Primária Feliciano Galdino, de saudosa memória.

 

A Petita era filha do famoso professor Feliciano Galdino que, por gerações, ensinou os jovens cuiabanos, notadamente do bairro do Porto, em Cuiabá. Depois fui para a escola Senador Azeredo, também, no Porto e Escola Modelo Barão de Melgaço, atual Liceu Cuiabano “Maria de Arruda Mulher”, praça General Mallet, na capital. O curso de admissão ao ginásio fiz na Escola 15 de março, na rua Joaquim Murtinho, na casa das queridas professoras Ana Leite, Ana Senhorinha, Galega, Stella, Marcelina, e depois Contadora, pela Escola Técnica de Comércio de Cuiabá, registrou Barros”.

 

Leila fez o curso de Ciências Domésticas entre 1952 a 1953; na Região Escoteira de São Paulo fez o curso de Insigna da Madeira; na Universidade de Viçosa, Minas Gerais, Extensão Rural e Economia Doméstica, e outros cursos na área de direito, principalmente Direito Administrativo e Processo Civil.

 

Estudiosa, Leila Francisca guarda boas memórias dos seus trabalhos junto à Segurança Pública do Estado de Mato Grosso que, estudou e pesquisou com muito carinho desde a antiga Guarda Civil, a Polícia Militar, o Corpo de Bombeiros e a Polícia Civil, do estado de Mato Grosso. Na ocasião, teve a paciência de levantar todos os processos, listá-los por assunto, para cumprir o seu planejamento de trabalho. “ Fiz tudo sozinha me entregando de corpo e alma ao trabalho.

 

Enfrentei Delegados e Coronéis em plena Revolução com os atos institucionais vigorando. Foi um trabalho e tanto que me aproximou muito ao general Gastão Nunes da Cunha que era o primeiro a chegar apertando a mão de cada um dos funcionários: do porteiro ao pessoal do gabinete”, confessou à Evaldo de Barros.

 

Leila Francisca lembra emocionada de certos momentos de sua vida e fez questão de registrar a Barros, um momento de suas “lembranças de velho: “ Lembro-me, emocionada, que por ocasião do sepultamento do querido Névio Lotufo, o filho dele, Nevinho, já cego, pediu-me para cantar a canção do Lobinho. Tanto o pai Névio como o filho Nevinho eram escoteiros e, mesmo cego, o Nevinho não se esqueceu do escoteirismo.

 

Também o seu sobrinho Evaldo, Coronel Barros, que foi comandante do 44º Bimtz – antigo 16 BC – em emocionado discurso falou da minha pessoa em solenidade da Previ - da Prefeitura Municipal de Cuiabá. Até o Presidente Castelo Branco cumprimentou os escoteiros do grupo Lobinho e sempre que eles me encontram chamam-me “ chefe” Leila. Isso é gratificante e demonstra o quanto o escoteirismo contribuiu para a formação integral dessas ex-rainhas que hoje brilham nas administrações pública e privada ostentando os ensinamentos recebidos”, registrou Leila Francisca.

 

Leila Francisca lamenta tanta dedicação e pouco reconhecimento salarial, aos que já se dedicaram tanto a sua cidade e ao seu estado, assim como, tantos outros. Vive honestamente com os seus parcos proventos de aposentadoria e, entende que ao trabalhar, ao dedicar, ao servir com presteza e honradez, o final merecia ser diferente, isto é, o velho ser melhor reconhecido, melhor remunerado, melhor referenciado.

 

Hoje, “o velho não tem armas. Nós é que temos que lutar por ele, conforme disse Marilena de Souza Chauí a Ecléa Bossi. Por que temos que lutar pelos velhos? Porque são a fonte de onde jorra a essência da cultura, ponto onde o passado se conserva e o presente se prepara, pois, como escrevera Walter Benjamin, só o perde o sentido aquilo que no presente não é percebido como visado pelo passado.

 

O que foi não é uma coisa revista por nosso olhar, nem é uma ideia inspecionada por nosso espirito – é alargamento das fronteiras do presente, lembrança de promessas não cumpridas. Eis por que, recuperando a figura do cronista contra a do cientista da história, Benjamin afirma que o segundo é uma voz despencando no vazio, enquanto o primeiro crê que tudo é importante, conta e merece ser contado, pois todo dia é o último dia. E o último dia é hoje.

 

Mas, se os velhos são guardiões do passado, por que nós é que temos de lutar por eles? Porque foram desarmados. Ao mostrá-los, Ecléa, sua tese deixa exposta uma ferida aberta em nossa cultura: a velhice oprimida, despojada e banida. A função social do velho é lembrar e aconselhar – unir o começo e o fim, ligando o que foi e o porvir. Mas a sociedade capitalista impede a lembrança, usa o braço servil do velho e recusa os seus conselhos, afirma Chauí.

 

Apesar de tudo, Leila Francisca continua a prestar os seus serviços a Cuiabá e a Mato Grosso, agora como voluntária, junto ao Instituto de Promoção Humana Papa João XXIII, criado pelas ex-alunas do Colégio Coração de Jesus. Católica, pertence à irmandade Filhas de Maria Auxiliadora, é Cursilhista e atua como voluntária na Sociedade São Vicente de Paula.

 

Os nossos respeitos a Dra. Leila Francisca de Souza, da qual Cuiabá se orgulha em tê-la presente na cidade, sempre evocando, a todos a favor da sua preservação. “ Acho que a cidade de ontem era melhor e tínhamos mais amigos, participávamos das festas, havia solidariedade entre nós.

 

Isso não é saudosismo de minha parte. Você não acha que atualmente as pessoas estão se afastando umas das outras?

 

Acabaram com tudo: nosso carnaval, nossos comícios, nossos mananciais de água, nossos poços de água potável. É tudo construção e mais construção sem nenhum respeito ao nosso passado de cidade verde. Estão acabando com os nossos quintais cuiabanos”

 

Neila Barreto é jornalista, historiadora e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso.

 

 

 

 

 

 

 

 

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