@crsf

O cansaço virou "extrema direita"

O cansaço virou "extrema direita"

A “extrema-direita” venceu. Ao menos foi esse o rótulo reservado a quem se recusou a votar segundo a cartilha vermelha. O termo extrema-esquerda, aliás, desapareceu do nosso vocabulário político. Uma coincidência extraordinária.

A primeira mensagem das urnas já chegou. O problema é que muita gente prefere insultar o mensageiro.

Há uma genealogia nisso. Quem leu Marx, e não apenas comprou a camiseta, conhece o roteiro.

O marxismo transformou o conflito de classes na chave de leitura da história. Só que a velha dupla burguesia e proletariado envelheceu. A lógica moderna precisou de matéria-prima mais abundante e encontrou a política identitária.

Multiplicaram-se as vítimas, os opressores e os ressentimentos. Mudaram os atores; sobrou a necessidade do antagonismo.

É preciso haver o oprimido e o opressor. O progressista e o reacionário. O democrata e o fascista. Até as minorias precisam de carimbo ideológico para merecer solidariedade. Os judeus, vejam só, “os opressores”, descobriram isso recentemente. Vítima, sim; mas só se se vestir de vermelho.

Família, religião e comunidade perturbam essa engrenagem. Elas criam pertencimento fora do Estado. Quem encontra sentido na fé, amparo na família e dignidade na própria renda precisa muito menos de um tutor existencial no poder.

Depois de duas décadas, o sermão populista cansou. O brasileiro já foi informado dezenas de vezes de que o governo acabou com a fome e salvou os pobres. Estranhamente, a cada quatro anos, os mesmos problemas exigem os mesmos salvadores. É o ilusionismo da dependência, e o milagre precisa ser refeito a cada eleição.

Proteção social é indispensável. Tutela política é cativeiro. O pobre que prospera ganha autonomia. O permanentemente dependente garante a perpetuação do salvador.

O fenômeno destas urnas não é sobre radicalização. É sobre exaustão.

O brasileiro não virou extremista de um dia para o outro. Ele apenas se cansou de uma política que promete mudar sua vida, evidentemente, desde que nada mude no poder.

Chamaram esse cansaço de extrema-direita.

Resta saber o que acontece quando o cansaço perde o medo do rótulo e decide votar.

No segundo turno, saberemos se era extremismo ou apenas o Brasil cansado de quem insiste em salvá-lo.

Alex Pipkin é Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS

Faça um comentário // Expresse sua opinião...

Veja os últimos Comentários

NOTÍCIA ANTERIOR

Banho de mangueira

PRÓXIMA NOTÍCIA

Picanha não vem de boi vivo

Veja também

Chico Guarnieri anuncia candidatura para Primeira-Secretaria da Assembleia Legislativa de Mato Grosso

Chico Guarnieri anuncia candidatura para Primeira-...

O deputado estadual Chico Guarnieri (PSDB) confirmou nesta quarta-feira sua intenção de disputar o cargo de primeiro-secretário na próxima eleição...

Senado aprova fim da escala 6x1 e reduz jornada para 40 horas semanais

Senado aprova fim da escala 6x1 e reduz jornada pa...

Em votação histórica realizada na noite de quarta-feira, o plenário do Senado Federal aprovou a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 221/2019, q...

Júlio Campos busca garantir indicação de veteranos do União para vaga no TCE-MT

Júlio Campos busca garantir indicação de veteranos...

O deputado estadual Júlio Campos (União) revelou ter mantido conversas com o presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT), Ma...