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O primeiro canivete

O primeiro canivete

Ganhar o primeiro canivete era motivo de enorme orgulho para muitos meninos do interior. 

Não era um brinquedo, mas um sinal de confiança dos adultos. 

Com ele surgiam pequenas responsabilidades e inúmeras utilidades no dia a dia. 

O objeto era guardado com carinho no bolso, acompanhando caminhadas, pescarias e aventuras que marcariam para sempre a lembrança da infância. 

Não me lembro exatamente quando ganhei meu primeiro canivete. 

Achava bonito carregá-lo no bolso da calça enquanto percorria de bicicleta as ruas de Cuiabá. 

Para mim, era um símbolo de maturidade e responsabilidade. 

Naquele tempo, muitos o consideravam também um instrumento de defesa, razão pela qual seus portadores eram respeitados e, por vezes, até temidos. 

Infelizmente, uma briga entre meninos podia terminar em graves ferimentos. 

O canivete era companheiro indispensável nas caminhadas, nas pescarias, na preparação do cigarro de palha e tantas aventuras que ficaram gravadas na memória. 

Servia para descascar as frutas maduras encontradas nas árvores à beira das estradas, limpar os peixes recém-pescados e resolver pequenas necessidades do cotidiano. 

Hoje é raro encontrar alguém carregando um canivete. 

Nas regiões rurais, porém, ele ainda conserva seu prestígio, assim como a velha funda usada para caçar passarinhos, ambos retratos de um tempo que lentamente desaparece. 

Confesso que, muitas vezes, tenho vontade de morar na roça, longe da agitação da chamada civilização. 

Despertar ao som dos passarinhos, continua sendo um dos meus maiores sonhos. 

Caminhar pelas matas de um sítio, com um canivete no bolso, é quase um retorno à infância e um reencontro com a simplicidade da vida.

A lembrança desse canivete marcou minha juventude tanto quanto a alegria de ganhar minha primeira bicicleta, aos quinze anos. 

No passeio inaugural, acompanhado por um grupo de colegas, seguimos até o cais do Porto. 

Na descida da rua Quinze de Novembro, apertei apenas o freio da roda dianteira para diminuir a velocidade. 

O resultado foi um tombo espetacular, com escoriações pelo corpo inteiro. 

No entanto, nada foi capaz de diminuir a felicidade daqueles dias. 

Revisitar o passado é redescobrir tesouros que o tempo guardou silenciosamente na memória. 

São essas pequenas lembranças que continuam iluminando o presente. 

Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado

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