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Os Outros na Política – Uma ficção

Os Outros na Política – Uma ficção

A mesa de café da manhã do hotel costumava ser um refúgio calmo se chegassem bem cedo, mas naquela manhã de domingo a conversa ganhara um tom denso. Vicente passava a manteiga no pão enquanto o amigo, Alberto, desabafava sobre o que presenciara no diretório do partido na noite anterior.

— É impressionante, Vicente — disse Alberto, balançando a cabeça com desapontamento. — Eles reuniram a diretora, falaram durante horas sobre “base”, “militância” e “construção partidária”. Mas na hora de definir os nomes para a chapa e a distribuição do fundo eleitoral, o grupo do comando tratou os pré-candidatos mais simples como se fossem complementos. Os “caciques” se colocam como se existissem primeiro eles, e depois o resto.

Vicente tomou um gole do café, olhou para o jardim a sua frente e assentiu devagar.

— Você está descobrindo o poder de uma pequena e perigosa expressão, Alberto: os outros.

— Como assim?

— A política viciou em criar essa categoria — respondeu Vicente, pousando a xícara no pires. — Pode reparar. Em todo ambiente partidário hoje, existe a cúpula dos eleitos e o grupo dos “outros”. Se o pré-candidato não traz um sobrenome tradicional, se não tem um padrinho forte no partido ou se não demonstra aquele engajamento cego e subserviente que eles exigem, ele é mantido a uma distância calculada. Só serve para fazer volume na convenção e somar voto de legenda para eleger os de sempre.

Alberto encostou-se na cadeira, pensativo.

— Mas no discurso de abertura o dirigente do partido falou tanto em ‘abrir portas’ e ‘renovação’…

— O discurso aceita qualquer coisa — atalhou Vicente com serenidade. — A prática é que revela a hipocrisia. Para eles, “os outros” nunca são cultos o bastante, nunca são ricos o suficiente nem dignos de figurar no horário de rádio e TV. Criam-se castas políticas onde só entra quem reza pela mesma cartilha. E o mais trágico é que esquecem o essencial: é justamente nesses “outros”, que estão nas bases, que reside a verdadeira carência de afeto, a falta de escuta sincera e a fome de acolhimento da população.

Vicente inclinou-se para a mesa, encarando o amigo.

— Se a proposta de um partido ou de qualquer instituição pública deveria ser a de agregar e não dispersar, de somar e não afastar, de socializar e não discriminar… a conclusão é uma só: estamos errando. E errando muito.

Após o término do café, Alberto despediu-se e Vicente caminhou até o parapeito da varanda do restaurante. O vento da manhã movia suavemente as folhas das árvores no jardim, mas a mente dele continuava fixa na engrenagem fria daquela conversa.

Pensou na sutil e devastadora geografia que os homens insistem em desenhar no mundo: a linha invisível entre os de dentro e os de fora, entre os donos do poder e a periferia dos projetos.

Não fazia o menor sentido a existência dessa separação, seja na política, nas religiões ou nas associações. Afinal, por que insistimos na ilusão de que existem “outros” se somos todos frutos da mesma árvore, filhos de um só Deus — não importa a forma como O reconheçamos ou o nome que demos a Ele? Pertencemos todos ao mesmo rebanho e compartilhamos da mesma dignidade de origem.

No entanto, a arrogância humana insiste em transformar a política em feudo, a fé em privilégio de cúpula e o convívio social em um balcão de seletividade. Transforma-se o correligionário de base em mero instrumento e o cidadão comum em um estranho, apenas para proteger o pequeno ego daqueles que se julgam puros, eleitos ou donos da verdade.

Vicente respirou fundo, observando a rua que começava a despertar. Sabia que a verdadeira transformação não viria dos palanques iluminados nem das reuniões à porta fechada onde se distribuem recursos. Viria da coragem simples e humilde de romper a bolha, olhar nos olhos de quem está na margem e sentar-se, sem reservas nem preconceitos, à mesa dos “outros”.

Marcelo Portocarrero é engenheiro civil

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