Presidente da Câmara de Cuiabá fala sobre gestão, estigma de 'Casa dos Horrores' e desafios legislativos
A presidente da Câmara Municipal de Cuiabá, vereadora Paula Calil (PL), abordou em entrevista exclusiva seus esforços contínuos para reverter a imagem negativa historicamente associada ao Legislativo local, marcado por escândalos políticos ao longo dos anos.
Durante a conversa, Paula destacou que um de seus principais objetivos durante a gestão, que completa um ano e meio, é estreitar o relacionamento entre a população e a instituição, criando uma percepção mais positiva sobre o trabalho realizado pelos vereadores.

"Enquanto vereadora e presidente, nós trabalhamos para isso diariamente. É um esforço constante afastar esse rótulo de Casa dos Horrores. Acredito que conseguimos reduzir significativamente essa sensação negativa que as pessoas carregam sobre o local", declarou Paula em entrevista ao MidiaNews.
A gestora também se posicionou sobre as verbas indenizatórias (V.I.s) dos vereadores, que podem chegar a R$ 64,6 mil mensais quando somados o salário de R$ 26 mil, V.I. de R$ 26,4 mil, gratificação por desempenho de R$ 9,1 mil e auxílio saúde de R$ 3,1 mil.
Confira os principais pontos da entrevista:
Balanço da gestão
Paula avaliou positivamente seu período à frente da Câmara, ressaltando a aproximação com a população, indicações apresentadas, produção legislativa e realização de audiências públicas com sociedade civil e instituições. A presidente mencionou ainda que cinco Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) tramitaram no ano anterior, todas direcionadas à apuração de irregularidades da gestão anterior, com encaminhamento adequado aos órgãos competentes.
"Enquanto cidadã, quero conhecer a verdade, esclarecer os fatos e encaminhá-los aos responsáveis. A Câmara entregou um trabalho significativo nesse período e encerramos o primeiro semestre de 2026 com alta produtividade legislativa", afirmou.
Questão da reeleição
Questionada sobre uma proposta de alteração regimental que permitiria sua reeleição, Paula reconheceu a existência de grupos antagônicos na Casa, respeitando a autonomia de cada vereador em suas escolhas políticas.

"O parlamento é plural. Cada um se posiciona conforme suas convicções. Dialogo e alinhamentos são essenciais na política. Inicialmente não pretendia me candidatar, mas recebi incentivos de colegas e agora busco lutar por condições equitativas com outros candidatos", explicou.
Apoio das mulheres vereadoras
Paula expressou decepção por não contar com o apoio das demais vereadoras em sua candidatura à reeleição. A Câmara de Cuiabá é pioneira no país com uma mesa 100% feminina, conforme destacou.
"Fico triste que mulheres vereadoras, que dividem a mesa comigo, não apoiem minha candidatura. Porém compreendo que na política há autonomia e alinhamentos distintos. Se outras vereadoras se unirem ao projeto, serão bem-vindas. Acredito que quando uma mulher desiste, a democracia perde", manifestou.
Pautas legislativas versus campanha eleitoral
Quando questionada sobre possíveis conflitos entre o debate eleitoral e discussões importantes, Paula garantiu que as matérias prioritárias para o município serão apreciadas regularmente.
"Independentemente da eleição da mesa ou pleitos gerais, temos o propósito de melhorar a cidade para o povo cuiabano. O parlamento é fundamental para que decisões não sejam monocráticas. É necessário consenso nas políticas públicas municipais", pontuou.
Financiamento da Câmara
Sobre o duodécimo (transferência de recursos do Executivo para o Legislativo), Paula considerou o valor apropriado para o desenvolvimento das atividades institucionais.

"Avaliamos que o valor transferido é justo. Boa parte do orçamento é investimento em servidores. A Câmara exerce papel fiscalizador importante. Neste semestre, apresentei 113 requerimentos de informação", destacou.
A presidente ressaltou que grande parte da população desconhece o funcionamento real do parlamento e suas responsabilidades. Segundo ela, todas as políticas públicas, inclusive nomenclaturas de logradouros, passam pela aprovação da Casa.
"As pessoas precisam participar e observar o funcionamento. Com mais transparência, conseguiremos desmistificar a ideia de que a Câmara não teria razão para existir", complementou.

Reverter o estigma de Casa dos Horrores
Paula ressaltou que a chave para eliminar esse rótulo histórico é aproximar cidadãos da instituição, permitindo que entendam melhor o trabalho desenvolvido.
"Em um ano e meio, conseguimos diminuir significativamente essa percepção negativa. Continuaremos trazendo pessoas à Câmara para que compreendam nossas funções e se livrem dessa pecha que não gosto nem de mencionar", afirmou.
Transparência das verbas indenizatórias
Paula esclareceu que as V.I.s destinam-se ao custeio de despesas do mandato. Todos os vereadores apresentam relatórios mensais, discriminando despesas conforme determinações do Tribunal de Contas do Estado.
"Tudo está no portal de transparência. Não é simplesmente receber a verba e gastar como se quer. Fazemos relatórios mensais entregues à Secretaria de Finanças", explicou.
Emendas parlamentares
A presidente avaliou como essenciais as emendas impositivas para que políticas públicas alcancem a base social através do terceiro setor.
"O vereador indica, mas quem executa é a Prefeitura. Há critérios rigorosos e fiscalizadores que verificam a execução. Dinheiro público precisa ser fiscalizado e bem empregado", ressaltou.
Campanha do irmão deputado
Paula confirmou que trabalhará ativamente pela reeleição de seu irmão, deputado Faissal Calil, como integrante de um grupo político coeso.
"Será após o expediente de trabalho. Até hoje não tenho faltas em sessão e honrarei meus compromissos com a Câmara. Política é algo que fazemos depois", ressalvou.
Decreto sobre lotes para habitação popular
Questionada sobre o decreto municipal que estabeleceu tamanho mínimo de 200 metros quadrados para lotes de habitação popular (posteriormente suspenso por liminar), Paula adotou posição cautelosa.

O projeto chegou à Câmara, foi lido em sessão e encaminhado à Secretaria de Comissões. Paula sugeriu a realização de audiências públicas para ouvir a sociedade, após o qual o Executivo retirou a matéria.
"Como presidente, sempre busco diálogo. Precisamos ouvir a sociedade integralmente: cidadãos, setor da construção civil e Caixa Econômica Federal. É louvável que o prefeito queira moradias melhores, mas devemos avaliar os impactos globais", ponderou.
Paula manifestou preocupação com possíveis consequências para cidadãos de baixa renda que buscam realizar o sonho da casa própria.
"Não queremos que esse sonho seja adiado por aumento de custos. Também não desejamos prejudicar pequenos empreendedores do setor imobiliário. A Câmara realizará audiência pública para ouvir todos os setores envolvidos", concluiu.
Quando perguntada se a Câmara poderia derrubar o decreto caso fosse comprovado impacto negativo para a população de baixa renda, Paula respondeu afirmativamente, deixando a decisão ao plenário.
"Sou uma presidente que coloca para apreciação de todos. As decisões não são monocráticas. Cada vereador se manifestará a favor ou contra", finalizou.
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