HISTÓRIAS QUE A VOVÓ NÃO CONTAVA
O Globo
Tem gente que gostaria de levar uma vida de contos de fadas. Melhor não. Por trás de cada Bela Adormecida e Chapeuzinho Vermelho, entre tantos outros personagens, escondem-se situações pavorosas, incestos, estupros, canibalismo, filicídios, torturas e outras maldades escabrosas: o inferno é o limite. Ao menos é o que mostra, com riqueza de detalhes, “O lado sombrio dos contos de fadas”, da jornalista Karin Hueck.
Pensemos na doce Cinderela, por exemplo. Tal qual o conhecemos, é um conto de assédio moral, crime, castigo e final bonitinho. Mas Karin mostra que, no longínquo século XIX, já havia 345 versões dessa narrativa — incluindo uma chinesa, do século IX. Uma das mais famosas, datada do século III, conta que Cinderela era uma princesa que decide fugir do seu reino porque o próprio pai queria casar com ela de qualquer maneira... Já uma versão menos conhecida da história é ainda mais pauleira: o rei realiza à força o desejo pela filha.
E a nossa inocente Chapeuzinho Vermelho? Nada inocente. Uma de suas origens estaria, dizem os estudiosos, no conto “A avó”, muito popular na França entre os séculos XVII e XIX. Primeiro, a menina inadvertidamente come a carne e bebe o sangue da vó que o lobisomem havia matado. Depois de um papo furado, tira a roupa ao primeiro pedido e se deita ao lado do invasor peludo e muito, muito mal intencionado. Depois ela consegue fugir, mas o climão é bem estranho.
O horror, o horror
É extensa a lista de obras citadas por Karin Hueck, com respectivas surpresas. Temos o instinto fratricida dos três porquinhos, cada um querendo matar o outro. Temos a mãe da Branca de Neve querendo comer o pulmão e o fígado da princesa. Também temos outra mãe desnaturada em “João e Maria” — que ora sugere abandoná-los na floresta por falta de comida em casa, ora simplesmente pensa em cozinhar as crianças para matar a fome dela e do marido. E temos a Bela Adormecida, durante seu longo sono, sendo violentada e abandonada por seu príncipe. O horror, o horror.
“O lado sombrio dos contos de fadas” é rico não só por registrar a gênese dessas e de outras tantas narrativas, com algumas variantes. A pesquisa é fruto de um ano de estudos na Alemanha. Aqui e ali, Karin Hueck apresenta interpretações psicanalíticas de praxe, baseadas em uma instigante bibliografia.
O melhor da conversa, que justifica mesmo a leitura do livro, é o fato de a escritora mostrar os contextos históricos em que surgem essas narrativas que não são exatamente divertidas, mas sem dúvida são sempre moralizantes, tendo servido de exemplo, ou padrão de comportamento, para muitas gerações de crianças.
Assim, é óbvio que Chapeuzinho mostra que não devemos confiar em estranhos — mesmo que pareçam pessoas gentis e inofensivas. E por aí vai.
A autora lembra que a necessidade de contar histórias surgiu lá na pré-história. O que não impede que, mais cedo ou mais tarde, uma mesma ideia tenha surgido em várias civilizações do planeta concomitantemente — inconsciente ou consciente coletivo? Vá saber.
Falando nisso, religiões e mitologias, lembra a escritora, também são fartas na criação de esquisitices. Portanto, se ainda hoje muita gente ainda acredita que a Bíblia ou o Corão têm poder para ditar regras sociais, políticas e “científicas”, imagine naqueles tempos de fé mais arraigada e ignorância epidêmica. E fica fácil saber de onde saiu tanta maldade que compõe essas narrativas: da própria Humanidade, claro, que sempre foi bizarra e criou muitos credos à sua imagem e semelhança. Deu no que deu.
Tantas madrastas
O livro também responde a várias perguntas menos filosóficas.
Por que existem tantas madrastas malvadas nos contos de fadas? A autora diz que, até bem pouco tempo atrás, a mortalidade entre mulheres adultas era muito alta. Elas se casavam ainda jovens, tinham muitos filhos, morriam durante o parto, seus maridos casavam-se novamente... e nem sempre havia química para unir a nova família. Aí o pau comia, e eis a receita explosiva que transformou as madrastas em bruxas.
Bruxas, fadas e feitiços também ocuparam o imaginário do povo durante milênios, ainda mais na Europa da Idade Média e suas nada santas inquisições, quando o mundo ficou cada vez menor e contos terríveis se espalharam pelos continentes. Sem falar que muitos deles nasceram a partir de crimes reais e chocantes, que foram adaptados de acordo com seu “público-alvo”.
Outro ponto pertinente: por que histórias assim sobreviveram ao longo dos séculos, fazendo tanto sucesso ainda hoje? Simples: somos todos bonzinhos na hora da missa, mas a gente adora acompanhar casos violentos — contanto que seja com os outros, claro. Basta conferir o êxito de filmes, séries, sites e livros baseados em crimes reais. Ou thrillers de pancadaria e matanças em geral. Se houver algum final feliz (como dois enamorados vivendo felizes para sempre), tampouco faz mal. Há milênios gostamos de enredos cheios de desafios, redenções e vitórias lacrimejantes.
O negócio é que, com o tempo, tudo vira mercado, e a violência que escorre dessas lendas tornou-se um entretenimento (infantil ou não) muito, muito lucrativo.
Karin Hueck apresenta, então, um pouco mais sobre nomes fundamentais para a sobrevivência das histórias infantis, como o francês Charles Perrault, os alemães Jacob e Wilhelm Grimm, e o dinamarquês Hans Christian Andersen. Cada um a seu tempo, entre os séculos XVII e XIX, esses e outros estudiosos coletaram, adaptaram e publicaram inúmeros contos de fadas. Seus livros venderam às pencas, eternizando uma tradição oral por excelência que, por isso mesmo, poderia ter se perdido na memória coletiva.
Tudo isso ocorreu muito antes de o americano Walter Elias Disney adocicar esses contos fantásticos. Ele mui habilmente entendeu que seria melhor aliviar as imagens pesadas e sanguinolentas, mantendo a moral de cada história sem ferir suscetibilidades mundo afora — de certa forma, um precursor da onda politicamente correta. A partir dos anos 1920, deu um colorido especial aos contos de fadas, influenciou muito mais crianças do que seus antecessores conseguiram e construiu, assim, um império que está para fazer cem anos.
A vida segue, muitas intrigas feias ainda surgirão, mas certo é que, depois de “O lado sombrio dos contos de fadas”, você nunca mais vai ler Chapeuzinho Vermelho (para seus netos) com a mesma inocência de antigamente.
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