Há uma diferença abismal entre apenas viver e significar. Na política, essa diferença começa na emoção e termina na razão. No início, a emoção mobiliza. Ela nos faz acreditar, filiar, vestir a camisa, defender um símbolo como se fosse uma causa. É ela que nos leva para dentro. Depois de um certo tempo, a emoção é substituída pelo bom senso e pela razão. O que era turvo decanta.
Fiz essa constatação olhando para o nosso país. O Brasil carrega uma âncora invisível. Há décadas fomos tragados por um redemoinho institucional que puxa para baixo nossa capacidade de avançar.
No início da década de 1960, o Brasil ostentava indicadores de renda e desenvolvimento semelhantes aos de países que hoje figuram como potências globais — nações que dispunham de uma fração do nosso território, população e recursos naturais. Passados 38 anos da atual Constituição Federal, por que eles saltaram para a vanguarda e nós continuamos tropeçando na própria sombra?
Não foi falta de talento do nosso povo. Foi um Estado que se agigantou para o privilégio e encolheu para o cidadão; uma classe dirigente que tratou a política como partilha de espólio e jamais como a continuação da construção de bases sólidas.
É preciso romper com isso. A justificativa existe, está mais do que exposta, e deve começar pela recusa radical ao populismo fiscal, ao aparelhamento da máquina pública e ao pragmatismo rasteiro que destrói o amanhã em troca do aplauso imediato.
Para quem milita em Mato Grosso, terra de gigantescas oportunidades e força produtiva vibrante, esse contraste salta aos olhos. Vemos nossa pujança esbarrar na ânsia intervencionista e no apetite insaciável de gestões que confundem o erário com patrimônio particular. É hora de parar de agir unicamente pela emoção. Se a paixão não ceder espaço ao discernimento, a razão cobrará uma conta alta.
Um projeto de nação se constrói por afinidade de valores, não por conveniência ou cálculo de sobrevivência. Sob o mero cálculo político, a história não passa da repetição do velho. Um país que aspira a ser trincheira de valores inegociáveis não pode se tornar membro do clube da conveniência.
E é aí que minha análise passa a ser sobre um método. Uma nação guiada por princípios não pode se vender a falsos símbolos nem à esperança mesquinha. Na prática, não deve se associar a nada que romantize o atraso: ao Estado inchado como patrão ou ao discurso da vitimização permanente. Precisa edificar uma lógica própria, pautada pela coerência e não por afetos conjunturais.
Para alcançar e exercer o poder, um movimento genuinamente idealista não se coliga com aquilo que diz combater. Pelo contrário, faz a crítica serena, mas firme, ao sistema vigente e ao seu balcão de negócios. Não cede por oportunismo a fisiologismos tradicionais, a corporações que vivem do dinheiro público ou a grupos que buscam apenas foro, voto e blindagem.
Não se coliga pela mera sobrevivência. Por isso, precisa recusar acordos fisiológicos e rejeitar narrativas artificiais, mesmo quando falta pragmatismo aos demais.
A política movida a emoção só quer viver o momento, o aplauso imediato e o palanque. A política movida na base da razão quer deixar rastro. A emoção mobiliza, mas só a razão sustenta. Quando a razão chega, ela não apaga o que aconteceu: ela explica.
Não podemos mais nos dar ao luxo de desperdiçar o tempo com um faz de conta apenas vivido. O tempo precisa adquirir significado.
Um governo genuinamente transformador incentiva as pessoas a continuarem levando suas ideias com altivez. A luta delas deve ser a prova de que a política ainda pode ser um ato de coragem, coerência e decência.
Marcelo Portocarrero é engenheiro civil
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