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Gritos da professora Valérie

ROSANA LEITE

Gritos da professora Valérie

Assistimos, mais uma vez, pedidos de socorro de uma mulher. Valérie, como narrou a mídia, pediu por alguém, para que a sua vida fosse preservada. O crime aconteceu em Lucas do Rio Verde/MT, fazendo sentir em cada uma das mulheres, o reflexo desse feminicídio.

           

No vídeo que circula em Mato Grosso, é possível perceber os gritos de pavor da mulher, como se em filme de terror estivesse vivendo naquele momento. Dizia: “Meu marido tá querendo me matar, socorro (...) ele tá com uma faca, socorro, alguém chama a polícia.”

           

A professora Valérie foi assassinada no sábado, tendo vários vizinhos chamado a polícia através do número 190, conforme afirmado em jornais de circulação de Mato Grosso. Todavia, o ‘descaso’ com os gritos de socorro de das mulheres é tamanho, que foi morta no dia 11, sendo o seu corpo localizado apenas na manhã de terça-feira, dia 14 de dezembro último.

           

Sem dúvidas, não há como não se enxergar na mesma situação da professora Valérie. O laudo cadavérico apontou que ela foi assassinada com 06 (seis) facadas superficiais, sendo a causa da morte traumatismo crânio facial. O que esse crime tem a dizer para as mulheres? Diz muito. A meu sentir, mais uma vez, é preciso falar que vivemos em risco, pela condição de gênero.

 

Ainda, que não há crédito em nossa voz, pois, mesmo clamando por diversas vezes, não foi acudida. Ademais, o corpo da vítima ficou por três dias em sua casa, sem que ninguém nada falasse.

 

De mais a mais, mesmo com os gritos de pedido de socorro da vítima, e telefonemas de vizinhos para que o socorro chegasse, o feminicídio aconteceu, permitindo, ainda, que o corpo ficasse ‘escondido’ por tanto tempo.

           

Mais uma vez, foi visto que os feminicídios são delitos que podem ser evitados. Logo, se eles estão acontecendo, o poder público acaba sendo responsável por não proporcionar a segurança necessária para as mulheres. Se os feminicídios estão incidindo, mesmo podendo ser evitados, existem mais ‘culpados’ a ‘assassinarem’ mulheres...

           

Por outro viés, o pedido de ajuda por parte da vítima desesperadamente, dizendo que o marido estaria armado com uma faca e a agredindo, reforça que as pessoas, apesar de terem afirmado feito ligações para a polícia, ainda deixam visível que frases de efeito são levadas em consideração, tais como: ‘em briga de marido e mulher ninguém mete a colher.’

           

No início do período pandêmico no Brasil, A.G. de S., de apenas 20 anos, após ser perseguida no condomínio onde morava em Cuiabá, foi assassinada pelo ex-companheiro a faca, no mês de abril de 2020.

                  

É possível perceber que os feminicídios são delitos que guardam semelhanças entre si, quando acontecem. Vê-se, sempre, a morte de mulheres com sinais em partes específicas dos corpos, tais como o rosto, a cabeça, e as partes íntimas.  A vigilância deve ser constante.

           

O grito de uma mulher nunca pode ser desprezado. Os crimes que acontecem no âmbito doméstico e familiar não se constituem em responsabilidade da família apenas em combater, mas, sim, do poder público.  A vulnerabilidade das mulheres se faz externada em números...

           

Quantas Valéries ainda serão vítimas?  

 

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora Pública Estadual.

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