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RETRATOS

por Gabriel Novis

RETRATOS

Tenho observado que, hoje em dia, posar para uma fotografia exige um sorriso.

 

Mesmo em fotos protocolares – de reuniões de trabalho, formaturas, e até em velórios, as pessoas raramente estão ao natural.

 

Revisitando antigos álbuns de retratos ou aquelas tradicionais fotografias na parede da sala com o patriarca ou o casal em posição de destaque, percebo que ali ninguém sorria.

 

O semblante era sério, muitas vezes austero, quase solene.

 

Havia na seriedade desses retratos uma tranquilidade que registrava memórias sem artificialidades.

 

Nas galerias das academias os fundadores sempre aparecem com rostos graves, refletindo o peso de suas responsabilidades, o valor de seus cargos e a dignidade com que os exerceram.

 

Como imaginar um soldado em guarda em frente ao quartel sorrindo para a câmera?

 

Ou alguém sendo fotografado em uma ambulância a caminho do pronto-socorro, ostentando um sorriso no rosto?

 

Mas, nos dias de hoje, sorrir para a foto tornou-se quase uma obrigação. Por quê?

 

Essa pergunta ecoa em minha mente.

 

Teria surgido da influência dos novos comunicadores visuais – os antigos retratistas e fotógrafos?

 

É curioso: não há um padrão universal para expressar felicidade.

 

Artistas, por exemplo, são constantemente forçados a sorrir, muitas vezes por exigência do marketing.

 

E, ironicamente, alguns deles fogem da própria realidade, refugiando-se em mundos artificiais e sombrios, como o das drogas.

 

Até nas reuniões familiares mais simples, impõe-se o sorriso.

 

O fotógrafo, ou “chamador de passarinhos”, exige expressões alegres, como se o sorriso fosse obrigatório.

 

No entanto, em muitas das fotos que tirei, apareço sério.

 

Não porque estivesse infeliz, mas porque simplesmente não sorrir era natural.

 

Mas há momentos em que o sorriso surge como uma necessidade.

 

Presidir uma cerimônia de formatura sem sorrir? Impossível.

 

Assim como uma despedida definitiva, em que o sorriso, mesmo triste, expressa gratidão.

 

Talvez o sorriso seja, afinal, parte essencial do mundo moderno.

 

Ainda assim, pergunto-me: há retrato mais belo e sincero que o de um recém-nascido chorando, ao sair do ventre materno?

 

O choro é o primeiro sinal de vida, o anúncio da saúde que chega.

 

Sorrir é uma lição aprendida com o tempo.

 

Crianças não sorriem para a câmera sob comando; fazem quando querem e, honestamente, prefiro isso aos sorrisos muitas vezes falsos dos adultos.

 

Por que, então, exigimos sorrisos em retratos?

 

Seria essa uma forma de ficção moderna, uma máscara social?

 

Confesso: tenho mais perguntas que respostas sobre este tema.

 

Gabriel Novis Neves

19-01-2025

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